segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Como Poderia Ser Menos Doloroso?

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Foi horrível, era como se eu estivesse morrendo. Contava até dez tentando me recuperar ou me acalmar, não sei. Eu me afoguei em todas aquelas nossas antigas memórias, e você não apareceu para me salvar.  Você teve meu coração por inteiro, e o despedaçou sem se importar se, posteriormente, eu poderia reconstruí-lo com o que sobrou.  Eu estive andando sem parar dias afora pelas ruas em que costumávamos andar juntos, mas dessa vez fui sozinha, você não estava lá. Andei, andei, andei, imaginando que te encontraria pelo caminho que sempre fazíamos da minha casa para a sua, quebrei todos os meus saltos, com pés cansados e calejados, mas você ainda não estava lá.  Sentava em guias e em calçadas sujas, quando uma mulher me perguntou: “Há algo que eu possa fazer por você, menina? Há algum número para que eu possa ligar?”, e eu desiludida por não te encontrar em nenhuma das nossas ruas, respondi: “Sim, a senhora me ajudaria? Poderia ligar neste número?” 
 “Claro, menina. Dê-me o número!”, minhas esperanças estão crescendo, será que ele iria atender a um número desconhecido, um número que não fosse o meu? Espero alguns segundos ansiosamente, implorando em pensamento para que ele atenda ao telefone, é quando aquela atenciosa mulher diz: “Desculpe, ninguém está atendendo. Existe outro número que eu possa ligar menina?” 
 “Não, mas, obrigada. Não faça essa cara de pena moça, eu não estou perdida, só estou vagando”.  
A minha memória está fresca na nossa cidade natal, todas as ruas pavimentadas me lembram o seu jeito de andar e de falar, me lembrando a sua mão enroscada na minha, me lembram a nossa corrida da sua casa até a minha, me lembram quando você enxugou aquela lágrima que ameaçava cair dos meus olhos, me lembram do dia em que te disse que iria fugir.  Eu vejo pessoas que eu conheci quando você estava aqui ainda, eu vejo pessoas que eu conhecia, mas, que agora me são estranhas, eu só esperava um telefonema ou um adeus, na verdade, eu só gostaria de saber o que foi que eu fiz ou pelo menos o que foi que aconteceu? Uma única noticia já me faria sorrir, mas não recebi nada depois de tantos meses, não recebi nada, nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum email, nada!
Hoje eu iria sair e andar por todas aquelas ruas que já andei por tantas horas e tantos dias, mas não conseguia ficar de pé, não conseguia andar, só uma coisa poderia me tirar dessa cama: VOCÊ!
O telefone tocou depois de meses em silêncio, foi então que ouvi a voz da sua mãe: “Beatriz, como você está?” 
 “Como estou? Onde está o Beto?” 
 “Beto? Você não sabe o que aconteceu?” 
 “O que foi que aconteceu Marieta, pelo amor de Deus?” 
 “Ele... ele... ah, o Beto... ele sofreu um acidente de avião há cinco meses” 
Meu coração começava a acelerar. Como eu não fiquei sabendo? Como só depois de exatos cinco meses sem contato com ele, eu fique sabendo o que tinha acontecido?
“Porque ele não me ligou?” 
 “Beatriz, o Beto... ele não sobreviveu” 
 “O quê?” 
Era o fim, por que o Beto? Por que ele? Por que levar o amor da minha vida? Como eu posso viver sabendo de tal coisa? O Beto. Eu nunca mais o veria, nunca mais teria esperanças de encontrá-lo, nunca mais andaria pelas ruas da cidade á procura do Beto, nunca mais perguntaria ‘como está’, nunca mais daria ‘boa noite’, nunca mais diria ‘eu te amo, meu amor’. Agora me pergunto se não seria menos doloroso se eu não soubesse deste acidente horrível, me pergunto se não seria menos doloroso se eu andasse pelas ruas mesmo sem esperanças na tentativa de encontrá-lo andando de mãos dadas com outra mulher.  Beto, o meu Beto, o amor da minha vida não voltaria nunca mais, eu não o veria da janela atravessando a rua com flores em uma das mãos e na outra uma garrafa de vinho, nunca mais o convidaria para um jantar na expectativa dele passar a noite no meu apartamento, nunca mais sentiria seu cafuné e nunca mais faria cafuné, nunca mais tocaria naquele cabelo preto, nunca mais o tocaria. Um pedaço de mim foi arrancado, e eu não sabia, mas muitos outros pedaços seriam arrancados a partir de agora.  Hoje, sei o quanto a vida gosta de arrancar pedaços nossos.

Autoria de: Caroline Sant

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